domingo, 25 de novembro de 2012

O Jogo das Damas na Psicologia

                                                                Fotografia: 2012 | Nathalie Marques

A Utilidade do Jogo das Damas

Em conversa com uma colega, ela perguntava-me qual era a finalidade de jogos como o jogo das damas ou outros similares, na consulta de psicologia. 
Na sua opinião, não servia de nada pois o que realmente interessava era "atingir logo o ponto" utilizando atividades que fossem ao objetivo.

Na altura, embora tivesse uma opinião sobre esse assunto, não me esforcei muito na sua reflexão, no entanto, nunca me saiu da cabeça esta questão.

Faz parte da consulta com crianças o uso de jogos deste tipo. Falo do jogo das damas mas poderia estar a falar do UNO ou do MIKADO.

O jogo em si mesmo não é "psicológico", porque não é directo aos sentimentos ou à problemática. Mas jogar a dois obriga ao estabelecimento de uma relação e a um processo que traduz a dinâmica psicológica da criança.

Irei dar vários exemplos porque, o uso deste jogo, já me trouxe várias "respostas" diferentes.


Caso 1 - 11 anos.

Esta criança tem escolhido várias vezes este jogo. Quando jogámos às damas, foi possível retirar observações:
  • Num momento, a criança jogava às damas e perdeu. No momento seguinte, ela diz-me "agora temos de jogar para a desforra".
Reflexão: Aqui, na minha opinião, observa-se a forma como ela lida com o conflito. Perder não foi totalmente bem aceite e foi-lhe difícil aceitar que tinha ficado numa posição desfavorável.
Por forma a lidar com este sentimento de derrota, assumiu uma posição que demonstra uma ligeira hostilidade, quase que numa posição de rivalidade ou disputa.


  •  Durante um outro dia de jogo, a criança estava a jogar e sentia que estava a perder no jogo. Durante a partida, queria mudar as regras. Como não permiti, a criança queria desistir e recomeçar. Incentivei-a a continuar mas frequentemente tentou enganar-me. 
Reflexão: Durante este jogo foi possível observar a fraca tolerância à frustração e a sua tentativa de manipular. 

  •  Noutro dia, mais à frente no acompanhamento, o jogo decorreu de outra forma. Durante a actividade, a criança ia jogando mas hesitava nas jogadas porque sabia que poderia prejudicar-me e levar-me a perder. Quase no fim do jogo dizia-me "podemos ganhar as duas". 
Reflexão:  Estava estabelecida um relação positiva. O esforço por manter um bom final para ambas revelava a sua necessidade em "agradar-me", a necessidade de manter um laço positivo que não se destruiria com a provocação de um sentimento negativo em mim. Assim, demonstrou a sua ligação a mim e à terapia.

  •  A sessão estava a decorrer com a partilha de sentimentos e episódios de vida, provocados pelo uso do Jogo dos Sentimentos, de Graça Gonçalves. Quando o jogo acabou, passámos para as damas e houve silêncio.
Reflexão: Desta sessão trago a lembrança e a sensação de que este jogo tinha sido escolhido como uma forma de fugir ao acesso ao seu mundo interno, como um organizador e apaziguador de todas as sensações trazidas pelo jogo anterior.

  • Depois das férias de verão, numa das sessões depois de um periodo de ausência, a criança escolheu novamente este jogo. Durante o jogo senti diferenças no seu comportamento. Estava mais concentrada e mais focada na sua vitória, sem mostrar agressividade nem vontade de desistir, a lidar bem com a sua desvantagem no jogo. A derrota foi vivida com calma.
Reflexão: Este é um bom exemplo sobre a observação que podemos obter sobre as mudanças no funcionamento e comportamento da criança. Pude aperceber-me das mudanças positivas sobre a forma como lidava com os conflitos e na capacidade de se preocupar com o seu sucesso pessoal, sem ser destrutiva para o outro.


Caso 2 - 6 anos


  • Esta criança tinha muitas dificuldades em aceder ao seu mundo interno, demonstrando uma grande preferência por este jogo.
Reflexão: Este tipo de jogos, por não forçar o uso do mundo imaginário, e consequentemente, ao seu mundo da fantasia, serve como defesa à projecção e como escudo aos sentimentos desagradáveis.
Neste caso, revela-se uma preferência por este tipo de jogos, dando-nos indicações da sua dificuldades em lidar com essas emoções.

  Caso 3 - 13 anos


  • Durante o jogo houve uma confusão sobre de que era a vez de jogar. Eu tinha acabado de jogar, por isso, era a vez dela. Eu aguardei a sua partida, e como ela pensava que era a minha vez, esperou pela minha.
       Enquanto esperava, observei-a: Esteve imóvel durante todo o tempo, nunca olhou para mim, com sinais ou algo semelhante que me relembrasse de jogar ou algo parecido. Ficámos aquele tempo sem qualquer tipo de açao.

Reflexões:  Este momento de jogo revelou-me a sua passividade nesta relação a dois ou neste momento social. Assim, o momento de jogo demonstraria a sua forma de lidar com situações relacionais e perceber melhor o seu funcionamento.


Nota Final: Deixo estas reflexões para perceberem que este tipo de jogos são mais que meros jogos, que possibilitam a leitura de um funcionamento psíquico e dar respostas da evolução do acompanhamento e da criança em si.

Desafio à partilha de opiniões e partilha de casos semelhantes.

Enjoy!!!

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