sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Primeira Entrevista /Consulta com Crianças


Adicionar vídeoEstava a ler o livro "Filhos do Abandono" de Torey Hayden e logo no início do livro ela encontra-se, em contexto de consulta, com uma paciente de 6 anos, e começa a sua intervenção duma forma que, na minha opinião, traduz a forma como o acompanhamento deve começar.
Ponho aqui este excerto porque quando começamos a acompanhar crianças ficamos um pouco na dúvida sobre a forma como devemos fazê-lo, como devemos começar a falar com ela. Pois ficamos na dúvida se ela sabe o que está a fazer ali e se ela quer esta ali.
Por vezes assumimos que as crianças não têm conhecimentos ou habilidade para compreender o que se passa. Tendemos a ocultar as coisas simplesmente porque "são crianças... elas não entendem".
Mas explicar o que se passa é fundamental para que se consiga estabelecer a aliança terapêutica e atingir o objectivo do acompanhamento.

Assim, deixo um excerto do livro que me parece claro e limpo sobre a forma como deve começar a jornada.


" - Eu chamo-me Torey. Vamos ver-nos todos os dias para trabalharmos juntas - Expliquei, sentando-me numa cadeira ao lado da dela. - Consegues dizer-me por que é que estás nesta unidade?
Os olhos negros fixaram-se nos meus. Durante um ou dois minutos, perscrutou-se atentamente, como se neles procurasse a resposta. Depois, abanou a cabeça de leve.
- Não, respondeu.
- E a tua mamã? o que te disse? Explicou-te por que é que vinhas para aqui?
-Não me lembro.
- Ah, bom! - Exclamei.
Baixei-me e abri a minha caixa de material escolar. Retirei folhas em branco, bem como uma caixa de cartão mais pequena, e pousei tudo sobre a mesa.
- A maioria das crianças com quem trabalho vêm para este unidade porque têm problemas que as fazem sentir-se mal. Por exemplo, pode haver algum elemento da família muito infeliz e que, por isso, sinta vontade de fazer mal aos outros. Às vezes, essa infelicidade pode dever-se a um divórcio, ou ao desgaste provocado por constantes discussões em casa. Algumas crianças encontram-se cá por outros motivos. Ou porque sofreram um acidente, viveram uma experiência que as amedrontou muito, ou estiveram muito doentes. Há as que foram maltratadas ou que sentiram que não era correcta a forma como alguém as tocou, ou ainda outras a quem obrigaram a guardar segredos, daqueles que fazem mal. E às vezes... há crianças que nem sequer sabem por que é que não estão bem. passam o tempo todo irritadas, nervosas, ou estão constantemente com medo. Estão são algumas das razões porque vêm para esta unidade (...).
(...) - Agora que sabes por que é que algumas crianças vêm para esta unidade - prossegui -, achas que alguma destas razões se aplica ao teu caso?
- Não sei.
- Nesse caso, vou repetir-te algumas coisas que me contaram a teu respeito. Depois me dirás se, na tua opinião, são ou não verdade. Por exemplo, a tua mamã disse-me que, quando tinhas cinco anos, te aconteceu uma coisa que te assustou muito. Contou-me que se divorciou do teu papá e que o juiz decidiu que tu e a tua irmã iriam viver com ela e não voltariam a ver o teu papá. Mas, um dia, ele apareceu na escola e obrigou-te a entrar no carro, embora não tivesse esse direito. Levou-te com ele e não te deixou voltar para casa. Não telefonou à tua mamã para lhe comunicar que estavas sã e salva, nem deixou que tu lhe telefonasses. Ela disse que ficaste longe muito tempo, cerca de dois anos, e que, durante esse periodo que passaste com ele, aconteceram coisas terríveis. É verdade? (...)
(...) - A tua professora informou-me que gostas da escola e és capaz de participar nas aulas com entusiasmo. Diz ainda que és uma menina muito inteligente e, quando queres, trabalhas muito bem.
(...) - mas também acrescentou que, por vezes, tens muitos problemas. Irristas-te e sentes dificuldade em obedecer às regras. Em certas alturas, na escola, enervas-te muito e deixas de falar (...) e frequentemente, não dizes a verdade...
(...) e tu, o que achas? Pensas que é pr esses motivos que tens problemas? (...) gostava de saber o que pensas. Não há respostas boas ou más para as minhas perguntas. Andamos apenas à procura."



"Filhos do Abandono" de Torey Hayden. Capítulo 1, pp. 7-9

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