sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Era uma vez no Estágio...

Primeira Triagem:

No primeiro dia que fui assistir a triagens no centro de saúde levei logo com um balde de água fria.
Estava um dia de chuva horrível, as primeiras chuvas de Outubro... por isso mesmo, a minha orientadora chegou atrasadissima. Estive uma hora na sala de espera, à frente de uma senhora (a qual calculei logo que fosse uma paciente), a inventar coisas para me entreter.
Entretanto, a Orientadora chega, e dirigimo-nos para o consultório. Ela apresenta-me à paciente e pergunta se eu posso assistir à consulta... como devem calcular, levei um grande NÃO! Disse à senhora que não havia problema, que compreendia. Mas no fundo estava frustradissima, com vontade de dizer #$"&%&%$#!
Enfim... não correu muito bem...foi para excluir ali, logo, qualquer ilusão que tivesse criado.


Assistência da Primeira Triagem... Emoções...

Para pessoas emotivas, a grande questão que surge quando pensamos na vida profissional como psi, é a de como iremos nós reagir face às emoções dos pacientes...
O primeiro caso que assisti era um senhor. Pouco depois de entrar na consulta, o senhor começou a chorar.
Então, comecei a sentir o meu nariz a aquecer, o peito a apertar e heis que me surge a vontade de chorar... Apercebi-me da minha manifestação fisiológica e logo comecei a dizer a mim mesma que não podia chorar ali... A verdade é que não chorei, mas tive de espetar as unhas na palma da mão para aguentar isto... engoli em seco milhões de vezes e tentei ver o caso como se fosse um episódio duma série, em que a história não é verídica (se bem que fora do contexto de não querer chorar, uma série também me envolveria em lágrimas).

Primeira Consulta:

A primeira consulta que dei foi a uma criança pequena, 8 anos, com problemas de agressividade.
O meu primeiro choque foi pensar "ai meu deus, a minha orientadora já me quer dar um caso, ao fim de tão pouco tempo". Depois, comecei a pensar "ainda por cima uma criança, logo a população com quem eu não queria trabalhar"...
Ao mesmo tempo que estava excitadíssima com o primeiro caso, também morria de medo. O meu ego "inchou" porque finalmente ia praticar, mas ao mesmo tempo a minha mente questionava-se se eu tinha competências para começar com tudo isto...
Estava a chegar o primeiro dia... estudei a anamnese (ou história clínica, como preferirem) toda, de frente para trás, de trás para a frente... eu só não queria esquecer-me de nada.
Primeira Consulta, e eu, ao contrário do que esperava, não me senti nervosa... a verdade é que a ansiedade fugiu do meu coração para as minhas axilas... quando acabou a consulta, apercebi-me que soava imenso...
Quando terminei a consulta, a primeira coisa que pensei foi "fui eu que fiz isto"!! Exactamente o mesmo que eu senti quando me apercebi, pela primeira vez, que era mesmo EU a conduzir o carro, quando estava quase a ir a exame de condução...
Lembro-me que uma das coisas que mais temia, tal como alguns colegas, era de que não nos lembrássemos do que o paciente tinha dito durante a consulta... a nossa preocupação era de que precisávamos tirar notas, e os professores sempre nos disseram para não o fazer.
Lembrei-me dos pormenores todos! E estava convencida de que me tinha lembrado da anamnese toda, mas apercebi-me, depois em seminário de estágio, que não tinha tirado muita coisa... upss!


As peripécias do estágio até se tornam engraçadas, mas no momento conseguem ser mesmo desmotivantes... mas o tempo não pára e a responsabilidade obriga-nos a esquecer este percalços.
O momento em que nos apercebemos que finalmente chegámos ao princípio do fim de quase duas décadas de estudo intensivo é no mínimo motivante e gratificante.

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